Soneto da ex-namorada
Marianna Greca
Tem mulher que adora dizer que é solteira por opção.
Porque não sabe a sensação de preenchimento de estar com alguém.
Publicidade.
Eu não sei, parece ser sempre igual, mas de alguma forma é sempre totalmente novo.
Você
é chamada pelo mesmo nome que a sua mãe te deu, mas parece que está
ouvindo pela primeira vez, de uma forma estranhamente emocionante. Como
se nunca tivessem sorrido pra você da mesma maneira, como se o trabalho,
a rotina, a cidade, tudo adquirisse uma lente nova, melhor, e que veio
para ficar.
E todo mundo vê, vive aquilo com você, fica triste
com você, comemora, se inspira, torce, e faz de você e ele aquele casal
que todo mundo quer ser. De repente, você se sente a Rachel e o Ross da
história de todo mundo, a Scarlett e o Rhett, a Rose e o Jack.
Aí um dia, sem nenhum aviso prévio ou sem consultar o público, a produção toma outro caminho: o arroz chuta o feijão.
WHAT???
E sempre tem um que sai da sala de cinema, muda de canal, boicota a série, e vai falar mal no Facebook.
E quem é que vai consolar as tricoteiras? A novela acabou antes do último capítulo!
Mas
toda boa história tem um grande conflito. O público adora ver a fossa
saga da heroína que é chutada, sofre horrores, chora por uma infância
inteira, mas se levanta, luta por si mesma, e vira senhora do próprio
romance.
E todo mundo adora falar de um babaca. Vai negar. É que
todo babaca tem lá seu charme. Senão ele não teria nem a oportunidade de
ser um babaca, certo?
É que a escolha dele, por mais cruel que
possa ter sido com a heroína, também faz dele um herói - ainda que um
anti-herói - da história.
Podem até chamar ele de galinha no
começo. Mas depois de um tempo, todo mundo elogia ele por ter sido,
acima de tudo, honesto, e que se não estava bom, era melhor mesmo que
ele deixasse ela livre e não fizesse ninguém sofrer mais.
Sem
ironias, até que é bem legítimo. E no final, ele conhece uma mulher que
faz ele mudar de atitude, a mocinha conhece um cara super "queri" que
estava de olho nela desde o começo - mas foi presidente da friendzone o
filme inteiro -, eles até viram amigos em algum ponto, e todo mundo vai
pra casa com o valor do ingresso bem gasto.
Mas nem todo roteiro é familiar e confortável pro público.
Porque
ninguém sabe como reagir quando é ela quem dá o chute primeiro. Quando
ela não é a vítima - e todos viram que não foi a vítima em nenhum
momento da relação ou do término -, não há motivo no mundo que
justifique uma nova solteira.
O que ela tem na cabeça? Como ela,
nesse covil de babacas-que-não-querem-compromisso e
desesperadas-que-estão-ficando-mais-desesperadas-que-nunca, pode dizer
que se sentiu infeliz e vazia numa situação tão privilegiada, bonita e
rara como essa?
Ela é a única que ainda não entendeu que o
príncipe encantado não existe? Ela não se dá conta que o mercado está
pior que nunca, não tem cara que preste, ela perdeu o lugar na mesa, e
que boa sorte agora no final da fila de espera?
Como ela teve a
pachorra - adoro quando consigo usar essa palavra - de destruir um casal
tão lindo, tão "meant-to-be" aos olhos de todos, como fez um cara
daqueles sofrer tanto com uma rasteira dessas?
Afinal, ele não deixou de cumprir nenhuma daquelas promessas. Ele foi do início ao fim, maravilhoso, fiel, carinhoso, dedicado.
Afinal, ele não deixou de cumprir nenhuma daquelas promessas. Ele foi do início ao fim, maravilhoso, fiel, carinhoso, dedicado.
Não
foi? Todo mundo via! Não dá pra entender mulher! O que elas querem? E é
por causa dessas bitches como ela, que não sabem valorizar um homem
decente, que todos os dias se criam novos e novos babacas. E coitadas
das solteironas que ainda estão esperando a vez delas e vão dar de cara
com esses traumatizados com mulher.
Mas sabe de uma coisa? Quem não está no relacionamento, não sabe o que acontece no relacionamento.
Mas
antes de apedrejar, o julgamento é muito correto: todo mundo, da amiga
invejosa à prima encalhada, que não poupa a "vilã" da cara de decepção e
esperança de reconciliação, vai questionar e dar a ela a voz que
merece.
"Mas o que aconteceu, amada? Vocês eram tão perfeitos
juntos!". Uhum, se você cativou o público, o final da história é da
conta de todo mundo.
Como a Anna Karenina, do Tolstói, todo mundo
tem um papel a desempenhar para a plateia. É responsabilidade sua não
desapontar ninguém, e seguir com a história que todo mundo espera
assistir.
É que a vida alheia é sempre mais interessante, né? Então faça a sua própria história, viva a sua vida como está julgando e fofocando que devo viver a minha, e depois a gente conversa.
É que a vida alheia é sempre mais interessante, né? Então faça a sua própria história, viva a sua vida como está julgando e fofocando que devo viver a minha, e depois a gente conversa.
Essa
é a minha defesa - ainda em construção, eu sou aluna nova na sala - pra
vocês. Ex-namoradas, ex-amigas, ex-amantes, e ex-esposas por iniciativa
própria. As ex-mocinhas e as maiores vilãs de grandes histórias de
amor, cuja coragem de tomar a decisão mais difícil e a melhor para todo
mundo - sem esperar aplausos - e a elegância de não expor seus problemas
pessoais e conjugais para madrastas, irmãs feias e até para a plateia
insatisfeita, não é e nunca será compreendida.
Mas antes de
esperar o perdão alheio, a gente tem que aprender a se perdoar. Afinal,
todos tem suas próprias razões. Até aqueles que, sem convite, adoram te
perguntar quais foram as suas.
Ex-esposa ou ex-namorada, sim.
Marianna Greca
é publicitária e nerd assumida. SEO e Gestão de Conteúdo, Social Media,
tradutora e desenhista compulsiva. Acredita que assumir a maternidade
do mundo é o melhor caminho para a felicidade.


Nenhum comentário:
Postar um comentário