Um dia, quem sabe
Como
acreditar que há possibilidade de ser feliz quando desde sempre você
enfrentou o desamor? Quando você pensava ter encontrado a pessoa certa, o
Outro da sua vida, você quebrou foi a cara. Ele entrou na sua vida para
tirar onda. E você ficou assim: desenvolvendo um conformismo atroz, se
amaldiçoando e ao mesmo tempo procurando resignar-se com o que a vida
lhe reservou, ou seja, nada, ninguém. Você que tentou acreditou que
felicidade se compartilha, dançou. Você não quer comandar, quer
compartilhar. Não quer ser único, quer ser dois. Mas o destino, se
destino existir, foi cruel com você e traçou um caminho de solidão. Não
aquela solidão necessária à reflexão, ao relaxamento, mas aquela pesada,
aquela que faz você chegar em casa, olhar para as paredes e só tê-las
como companheiras.
Quem vive no desamor coleciona dias tristes, dias em que se doou
demais e não recebeu nada em troca. Vive ajudando os outros e saindo das
relações de mãos vazias, e olhe que você não tem vocação para Madre
Teresa. Quem vive no desamor vai acumulando ressentimento e rancor.
Disfarça, mas lá dentro, em conversas solitárias consigo mesmo, maquina
vingança. Disfarça mas gostaria que o Outro se desse mal, que pagasse um
preço alto por ter feito você sofrer. Depois, entra num processo de
autopunição. Eu não posso pensar assim, eu não quero pensar assim, eu
não sou essa pessoa má. Aí você recomeça do zero: negando tudo e
querendo que o Outro seja feliz. Afinal, era amor ou não o que você
sentia?
O desamor é tudo isso: culpa e absolvição. Punição e redenção. Quando
passa a viver esse dilema, automaticamente você chega ao estágio em que
toda a sua espiritualidade vai por água abaixo. Você vira ateu (ateia)
do dia para a noite. A agressividade fica lhe rondando, como se você
fosse explodir a qualquer momento. Com muita dificuldade vem o
autocontrole. Outro dilema. Viver o desamor é estar numa roda-gigante
constante por dias e noites. É querer voltar para o Outro e desistir.
Não quero sofrer mais, você promete a si mesmo. E fraqueja. E depois se
afasta com o desamor que o Outro provoca. Outro dilema. Vai e vem.
É estar constantemente à espera. À espera de que um dia, mesmo já
velhinho (a), a sorte bata à sua porta e você finalmente dê de cara com a
pessoa que fará seus dias, finalmente, alegres e completos.


2 comentários:
Como é difícil dizer que nunca se foi feliz. Talvez não fomos felizes o tempo todo, mas com certeza houve felicidade.
Felicidade é inexplicável e, além de tudo, é um estado de Espírito.
O doloroso mesmo, é a falta e lembrança dos momentos felizes.
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